Venezuela: Normalidade para quem?
No livro de Marx e Engels sobre a Sagrada Família, a contestação maior que ambos revolucionários faziam a família Bauer, era em relação a especulação histórica que era feito por eles, determinando um encadeamento ou um resultado muitas vezes antagônico do real, principalmente porque abandonavam a cientificidade das coisas, e as determinavam segundo a Crítica, ou seja, segundo os seus autoconhecimentos “especulativos”. A teoria é necessária e para chegar até ela, precisa-se além do método materialista dialético o estudo de caso. Mas em épocas de guerra, no mundo dominado pelas contra informações, especular as vezes sobre essa ou aquela notícia é o único caminho que temos.
As fontes são necessárias, estudar cada artigo e ver suas contradições. Marx quando escreve sobre a Comuna de Paris em tempo real, embora divergisse meses antes do acontecido em relação ao momento do levante, após ocorrer saudou-o de tal modo, que diante dos fatos a revolução demonstrou ser a única alternativa para o proletariado revolucionário. Desse modo, tirou os ensinamentos necessários, para que as revoluções futuras tivessem melhores embasamento teórico e prático sobre a luta de classes. São de todos os elementos conhecidos que Marx tira dos episódios de tomar os céus de assalto, e entre eles é que o Estado em uma revolução precisa ser quebrado, não simplesmente ser ocupado por nova direção política. A violência revolucionaria também ganha enfoque nos termos de que, sem ela a revolução não teria se sustentado não por dois meses, mas nem por dois dias. Pois bem, tudo isso para falar da Venezuela, em seu caminho para o Socialismo. Pois, a Venezuela liderou nesses últimos 30 anos na América, junto com Cuba logicamente, um rejuvenescimento da teoria, prática e bandeiras do Socialismo. A radicalidade vinha então deste país. Tudo era novo. O embate contra o imperialismo fazia-se no dia a dia. Mas o Estado ainda não era uma ditadura do proletariado, a revolução ainda não havia ocorrido, os meios de produção, dinheiro e muito da economia ainda era viabilizado sob o modo de produção burguês. Ali, na verdade, o poder do Estado é imenso, dado a estatização de um produto de uso internacional, o ouro preto. Isso, significa que o Estado tem um grande monopólio de produção.
No entanto, muito se fez neste período de revolução Bolivariana (uma meia revolução com certeza), porém em grande parte na organização do povo, em boa parte da superestrutura. Trazer a participação do povo organizado para interferir nos destinos da nação, foi a grande contribuição da revolução bolivariana, porém, a estrutura do Estado continuou a mesma. Mudou-se a prática democrática, mas ela estava presa aos limites do modo burguês de produção. É claro que, mais de 1000 comunas formadas nesse período e uns 50 mil conselhos comunais, onde cada conselho que estão na área urbana, abrigam de 150 a 400 famílias, calculando-se por baixo, seriam quase 10 milhões de pessoas organizadas nos conselhos. Isso não é pouca coisa.
Seriam os Soviets? Talvez em intensão, mas a estrutura era outra. O que faltava era o passo seguinte, colocar todo esse poder nas mãos dos comunas. Se Lênin se queixava da burocracia dentro do Estado revolucionário, que se mantinha e era um perigo, o que dizer de um Estado que não foi quebrado. Mas com os ataques cada vez maior do imperialismo e principalmente se preparando para a invasão, o povo foi armado e colocado para a batalha. Não seria o momento propício para passar o poder as comunas? Foi feito isso logo após a invasão, mas a política e o conteúdo que esse poder representaria logo após o ocorrido a invasão, já não são os mesmos. Esse poder, ao invés de estar avançando em uma guerra civil anti-imperialista, estar em estado de guerra contra a invasão, pelo sequestro de sua maior lideranças, com um ódio mortal dos assassinatos a sangue frio dos Cubanos que deram a vida para salvar Maduro, a indignação era outra, de um certo acomodamento, de arrumar a casa. Lembro que na revolução de outubro na Rússia, o povo saiu as ruas com fúria a matar aqueles que fuzilavam e os revolucionários, e então muitos do partido, queixavam dessa violência e Lênin, dizia: Porque essa queixa, nosso partido?
Se recebe presidente da CIA; membros do conselho americano para tratar de assuntos do petróleo, não se faz nenhuma consideração as ameaças a Cuba e a disposição de continuar levando petróleo a ilha ameaçada. Parece mais que o governo está refém do imperialismo, e as comunas que ganharam mais poder, não sabem o que fazer. Se aceitou o processo, e o pensamento econômico tomou lugar do pensamento político. Quando das tentativas de sequestro de Chaves em 2002, o que se elevou foi o pensamento político, agora foi o pensamento econômico, a sua manutenção. Nesse sentido, a Venezuela e seu povo foram enganados.
O centrismo tomou conta da direção do Estado na Venezuela, o deixa disso parece ser o pensamento colocado. A normalidade que todos proclamam como um grande resultado, está servindo ao inimigo. Se o povo está armado, daqui a algum tempo, vão começar a desarmá-lo, esta será a lógica. O que demostra cada vez mais, que houve traição, pois os cubanos não foram só assassinados, foram expulsos da Venezuela e condenados a viver sem a ajuda do Estado Venezuelanos. O fato foi muito bem articulado, precisava quebrar com a ideologia que mantinha a Venezuela de pé, e muitas vezes, ela se encontra em uma pessoa, num grupo, numa liderança. Maduro e os cubanos parecem que era elementos imprescindíveis na Revolução bolivariana.
Pedir a volta de Maduro e Cilia, com atos na rua e ao mesmo tempo manter boas relações com os genocidas, assassinos, carcereiros do imperialismo, é algo que não bate. Não levantar antes de qualquer negociação a volta de maduro, ao envio de carregamento de petróleo a Cuba, é tratar o inimigo amigavelmente. Manter em estado de guerra contra o imperialismo é o mínimo que o governo Venezuelano deveria fazer. Fechar a fronteira para o imperialismo e seguir como Cuba está fazendo, preparando o povo para o pior.
Bruno Bauer especulava com as questões históricas e de seu tempo, para demostrar que não existia um novo sistema na humanidade, que o Socialistas e reformistas do mundo, não passavam de acríticos, de uma massa falida. Os pais da “Crítica critica” (a sagrada família Bauer), queriam acomodar os espíritos de luta, os povos que não aceitavam viver sobre o tacão daqueles que tem o “poder supremo”, isto é o dinheiro, o Estado. Sua filosofia era Hegeliana, o aceite das condições são as normas.
Mas nós somos revolucionários, sabemos que a liberdade está na luta de classes e no esmagamento da burguesia. Sabemos que isso não é uma linha reta, há táticas a serem executadas e a Venezuela já demostrou isso várias vezes, porém, o que preservou esse tempo todo foi ter bem claro os inimigos do povo e os seus aliados. Na nova direção, isso além de manter uma confusão intencional ou de classe, também deixa claro por outro lado, a intensão de querer seguir pela normalidade. Não há nenhum petroleiro saindo da Venezuela em direção a Cuba. Essa exigência, deveria ser a número 1 antes de qualquer outra negociação, ainda mais para quem deu a vida na defesa da Venezuela. Nós exigimos isso nos dirão, mas eles não aceitaram. Então acabou a negociação.
Na mesma questão número 1, exigir a volta do presidente e sua esposa. Caso negativa, começa a atuar o julgamento político revolucionário de exceção, sob pena de morte dos políticos encarcerados que contribuíram historicamente para ver a Venezuela e seu povo, submetidos ao tacão do império. E o que foi feito, anistia para os presos políticos fascistas. Uma das grandes vitórias da luta revolucionária é conservar no povo o ódio aos inimigos de classe, nunca a tentativa de amenizar isso; esse por sua vez é o grande passo da derrota.
O novo poder na Venezuela, parece que vê na normalidade a grande conquista, nós vemos uma grande tentativa de acomodar o povo, de normalizar o genocídio do império, no ataque a um estado soberano. Estar em pé de guerra, é manter a bandeira da luta pela revolução. E se deram todo o poder as comunas, é preciso que elas assumam o novo Estado, um Estado proletário e a ditadura. Parece que um comando proletário foi deposto pelo ataque do dia 03 de Janeiro, onde se concentrava a guarda revolucionária cubana e o presidente Maduro. A guarda revolucionária foi toda morta e o presidente sequestrado. O que assumiu nitidamente, foi um novo comando. Em nossa análise um poder diferente do anterior. Lógico que não de direita, porém no mínimo pequeno burguês, quase socialista, menchevique quem sabe. Essa transição, muitas vezes é muito complicado de compreender, pois dependendo da situação, é o caminho mais suave para o cancelamento da luta.
Nossas ideias, tem o objetivo de contribuir para a teoria revolucionária, no sentido de dar respostas o mais breve possível diante de uma conjuntura de luta revolucionária, uma guerra civil e o que ocasionou suas derrotas. O atraso nessas questões, são um atraso no desenvolvimento da revolução. O atraso nas questões teóricas que levaram o fim da URSS, que rendem até hoje muitas mistificações, individualizações, acusações, etc. A própria comuna não teria se colocado como um elemento para as novas revoluções, se ela não tivesse a análise de Marx e Engels, que souberam tirar todos os proveitos que aquela revolução rendeu. Talvez, sem essa análise Marxistas sobre a comuna de paris, a revolução Russa não teria acontecido.
Por isso, diante da crise do capital, que atinge o centro do imperialismo mundial ao mesmo tempo em que as revoluções proletárias no mundo também começam a se desenvolver, é preciso tirar o máximo de lições no enfrentamento da burguesia imperialista monopolista e suas junções com as burguesias nacionais e a pequena burguesia de cada país. Não podemos descartar que governos considerados de esquerda, como o de Lula, estejam atuando na prática como elementos do imperialismo, em tentativas de isolar a Venezuela.
Em um país que a crise revolucionária avança (tal como a Venezuela), a pequena burguesia torna-se muitas vezes uma aliada do proletariado porém, no caminho, pelo endurecimento da luta, ela sempre acaba por trair a classe operária, porque o mundo dela, não é o do proletariado, ela tem o que perder.
As questões de classe, da luta de classes, do seu antagonismo, por fim a história como o motor da luta de classes são como diz Lênin, o maior patrimônio do Marxismo, e sob ela temos que dedicar nossos maiores estudos. Na Venezuela há um novo governo, uma nova classe, mesmo que seguem dizendo que tudo continua igual, e até mais avançado. Pelo que temos visto, o caminho é de capitulação ao imperialismo. Esperamos sinceramente que a história nos desminta. Caso contrário sirva para que o povo se levante em novo ato revolucionário, que o comando que tem se formado ao longo do tempo, retome a luta revolucionária o mais rápido possível.

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