O famoso XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), realizado em 1956, é apontado por muitos como fator principal para o desmoronamento do movimento comunista internacional. O Congresso ocorreu em fevereiro de 1956 e iniciou com um relatório que abordava dados da economia, industrialização, situação internacional, entre outros temas. Este informe foi feito por Nikita Khrushchov, secretário do Partido no período pós-Stálin. No entanto, o informe aberto, lido e aprovado não foi o evento principal do XX Congresso. O ato central, que marcou historicamente o Congresso, foi o chamado “relatório secreto”, no qual Khrushchov discursou e relatou os “crimes” de Stálin.
Este relatório foi apresentado a poucos membros e, inicialmente, deveria ser secreto. Porém, pouco tempo depois, em março do mesmo ano, foi publicado pela imprensa imperialista. Isso representou um grande golpe no movimento comunista em todo o mundo.
Os idealistas e mecanicistas tendem a observar um fenômeno de forma linear, como se o evento fosse o início e o fim, sem observar o movimento, as particularidades e os outros eventos que têm ligação com o fenômeno em questão. Muitos apontam o XX Congresso como o evento principal da queda do socialismo na União Soviética — é simples e fácil atribuir essa causalidade: Khrushchov tornou-se o centro do partido comunista e, dali em diante, o pensamento revolucionário teria se transformado em reformismo. No entanto, não podemos diminuir o impacto do XX Congresso. Essa luta interna, na verdade, iniciou-se nos anos 1930, mais especificamente em 1934, na realização do XVII Congresso do Partido, no qual Stálin perdeu espaço político. Sem contradição histórica, Stálin foi mantido no comando do partido, embora tenha havido a sugestão (boatos) de que Kirov, outro membro do partido e popularmente conhecido, assumisse a direção, mas ele recusou. Posteriormente, Kirov foi assassinado, e seu possível assassino morreu no dia seguinte ao cair de um caminhão conduzido pela polícia secreta.
A partir do XVII Congresso, iniciou-se uma grande luta interna, na qual boa parte dos membros e figuras históricas do partido foram mortos, julgados e execrados pelo Estado soviético.
Na luta internacional, ocorreu outro evento importante: o VII Congresso da Internacional Comunista, que mudou a tática dos partidos comunistas com as chamadas “frentes únicas”, propondo a unidade do movimento comunista com a social-democracia e a defesa das democracias burguesas diante do nazifascismo. Essa mudança tática proposta pela IC acabou se tornando a estratégia dos partidos comunistas, que, diante de um mal maior, abdicaram da luta revolucionária e se empenharam na defesa das democracias burguesas. Essa tática foi derrotada na Espanha, na França, na Grécia e em outros lugares onde foi posta em prática. Ainda hoje, os partidos comunistas seguem repetindo os erros da luta em defesa do sistema, abdicando de qualquer luta que coloque a revolução como viés principal, e as frentes únicas seguem desarmando o proletariado, preso nas amarras do capitalismo.
Esses dois eventos estavam diretamente ligados. A luta interna do movimento comunista da União Soviética e a linha da Internacional Comunista refletiam em todos os partidos comunistas do globo. Stálin acabou com a Internacional em 1943, e inventou-se a chamada “democracia popular”, assim como Dimitrov falava: “A democracia popular não é socialista nem soviética. É a passagem da democracia ao socialismo. A vantagem da democracia popular é que essa passagem se torna possível sem a ditadura do proletariado.” Era o abandono da luta revolucionária, a teoria da coexistência pacífica entre proletários e burgueses, a democracia com valor universal e não com valor de classe. Era o abandono da linha revolucionária como meio de libertação do proletariado mundial.
Stálin foi uma figura importante: pegou uma Rússia agrária e transformou-a em uma potência nuclear. Elevou o padrão de vida da população soviética e venceu o nazifascismo na Segunda Guerra Mundial. Sua importância não o inocenta de seus crimes — não os propagados pelo imperialismo, mas sim os relacionados à construção do Estado operário. Do lema “Todo poder aos sovietes”, passou-se a “todo poder a uma aristocracia” que tinha todas as características de classe dominante. A ditadura do proletariado deveria servir para vencer os inimigos da classe operária e impor a democracia da classe operária, fazendo com que o povo participasse, assumisse os rumos da sua história, participasse e aprendesse. A União Soviética não caiu exclusivamente em virtude do XX Congresso, embora este tenha sido um fator importante entre diversos outros. Caiu porque o Estado operário deixou de ser operário, e Stálin teve papel decisivo nisso: ele perdeu o XVII Congresso do Partido e aniquilou a oposição; a antítese foi morta e a tese virou verdade absoluta, transformando a organização em um corpo morto, não pensante, que permaneceu assim até se esfacelar de vez em 1991.
Aos comunistas de hoje cabe o aprendizado, o senso crítico, a não endeusar nem demonizar as coisas ou pessoas, mas trazer tudo para o plano material, que se possa estudar e fazer inferências, com acertos e erros, como o materialismo dialético exige ser, combatendo o idealismo — algo tão difícil que até os que se autoproclamam marxistas acabam caindo nele.

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