Desde o sequestro de Maduro, cometido pelo imperialismo estadunidense, ecoavam basicamente duas visões sobre o ocorrido:
1ª) a de um ataque bem-sucedido do imperialismo à Venezuela, mas a Revolução Bolivariana e o Chavismo continuariam no comando;
2ª) outra linha de análise é a de que Maduro foi traído e que o rumo do país está nas mãos de entreguistas. A Venezuela passou a ser tutelada pelos Estados Unidos.
Uma coisa é certa: no calor do momento, é difícil precisar o que de fato ocorreu e ainda ocorre na Venezuela, mas com o passar do tempo as evidências removem a poeira, e a clareza encontra-se no que posteriormente foi evidenciado.
Delcy Rodrigues assume como presidenta (empossada) e trava a narrativa de continuidade ao processo da Revolução Bolivariana. A frente internacional antifascista, com a participação de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), expressa aos participantes a necessidade de não gerar dúvidas sobre a continuidade da linha do governo venezuelano e emplacar uma campanha de defesa de Delcy como expressão da defesa da Revolução Bolivariana.
Agora, vamos às informações noticiadas para averiguar a linha de Delcy e os impactos que sucederam após o sequestro de Maduro.
Segundo o jornal inglês The Guardian, em 2025 Delcy já negociava com o governo norte-americano. Não nos ateremos à narrativa do jornal, mas ao fato de uma comunicação direta da liderança venezuelana com os sequestradores antes mesmo do sequestro. O ministro Diosdado Cabello também manteve conversas secretas com oficiais americanos meses antes da intervenção militar de janeiro de 2026.
No dia 5 de janeiro, Delcy é empossada, e dez dias após a posse, o diretor da CIA, John Ratcliffe, visitou Caracas, e ambos estiveram em uma reunião que durou cerca de duas horas. Um dia antes, a Venezuela libertou americanos detidos como gesto noticiado como “de boa vontade”.
No dia 29 de janeiro, acontece um golpe nas petroleiras, com a reforma do petróleo, dando permissão para privatização do setor. Em 1º de abril de 2026, os EUA removeram oficialmente Delcy Rodríguez da lista de indivíduos sancionados (SDN List), permitindo que ela realize negócios diretamente com entidades americanas. Os pagamentos pelas vendas de petróleo devem fluir através de contas controladas pelos EUA para garantir que os fundos sejam usados conforme os acordos pré-estabelecidos.
Em 5 de março, Estados Unidos e Venezuela restabelecem os laços formalmente, e em 30 do mesmo mês, a embaixada dos EUA em Caracas reabre oficialmente após sete anos.
Não há dúvidas de que, na política econômica e exterior, houve capitulação: receberam o diretor da CIA, um dos grandes responsáveis pelo sequestro de Maduro; abriram a porta à espionagem direta com a reabertura da embaixada em Caracas. Cuba, que pagou com vidas a defesa de Maduro, foi abandonada e sofre por não receber petróleo da Venezuela – petróleo este que se encontra sob comando norte-americano.
As capitulações sucederam em uma mudança no setor militar, com a substituição do ministro da defesa, com a remoção de símbolos chavistas e com a desmobilização das milícias bolivarianas.
A capitulação da Venezuela hoje fica mais transparente. A Telesur, que antes mostrava 24 horas de mobilização do povo, hoje se transformou em um aparelho fragilizado, que mostra as notícias com um certo viés avançado, mas sem ser o mesmo fator de mobilização constante para a luta do povo venezuelano por dias melhores. O socialismo vai perdendo espaço na oratória, e o que ganha espaço é o silêncio da Revolução Bolivariana, que não conseguiu mexer na propriedade privada. A Venezuela era uma trincheira do proletariado mundial; hoje virou mais uma derrota amarga, de capitulação direta ao imperialismo. As exigências do desenvolvimento social e o acirramento da luta de classes não demoraram a jogar luz sobre o que de fato ocorreu na Venezuela. A situação atual é transitória, o imperialismo está em crise e o movimento revolucionário vencerá.

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