Parlamentares de “esquerda” na moralização do Capitalismo

A Rede Globo comemora mais uma tentativa de atentado à liberdade de expressão no Brasil: a tramitação da lei da misoginia. Não é segredo para ninguém que a esquerda parlamentar é regida pela moral da pequena burguesia e sofre grande influência do grande pregador dessa moral – a Rede Globo.

Esta lei não acaba com o sofrimento das mulheres operárias que se submetem a situações precárias de trabalho para manter o pão de cada dia. Pelo contrário, essa lei vai em sentido contrária: amplia a censura sobre o que pode ou não ser dito. Por mais absurdo que uma pessoa se expresse, a liberdade irrestrita de expressão surgiu como mecanismo para o Estado não determinar o que pode ou não ser expresso. É uma conquista da Constituição de 1988. Com o avanço dos anos e, principalmente, durante o governo do PT, carregou-se no seio do projeto político não as mudanças estruturais sonhadas pelo povo trabalhador. O que veio em contrapartida foi uma tentativa de moralizar o que não pode ser moralizado – o Capitalismo.

Vivemos períodos de medo do que expressar, para não sermos pegos no corredor da moralidade, e presenciamos a desigualdade das leis repressoras do expressar: de um lado, quem tem condições de garantir um bom advogado e paga uma quantia irrisória por seu ato (quando chega a esse ponto); de outro, quem não tem condições — por mais banal que seja sua fala, sua penitência é de classe, sofrida na vida sofrida, na ausência de estudo, na falta de defesa de qualidade, sem remuneração para amenizar as penitências e sem nenhuma contribuição na construção da república da moralidade. O “todes”, “elu” ou o pronome imposto por esse setor da imposição não discute com o proletariado; reproduz a imposição das leis burguesas e amplifica o Estado policialesco dos dizeres.

Um país marcado por brincadeiras, piadas, alegria e de grandes comediantes vive seu momento de censura. Expressar “só podia ser mulher” – e clara ironia ignorada a todo custo, mesmo expressa no humilde brinquedo – torna-se um crime de rebaixamento da mulher. A inexistência de emprego, de educação de qualidade, da garantia de uma vida tranquila e longe da violência é normalizada. Banal é não se expressar como a Rede Globo deseja.

Antigamente, um indivíduo de origem negra que defendesse a burguesia era chamado de capitão do mato; hoje, isso é racismo. Sim, não importa a contextualização do que foi dito, como foi dito ou em qual cenário. O que importa é punir para os policiais da moralidade. Como alguns dizem, há coisas que não podem ser ditas. Se não podem, como combater?

O certo é que, assim como a lei antiterrorismo sancionada por Dilma Rousseff serve apenas para manter a ordem burguesa, essas leis da moralidade do vocabulário exteriorizam o mesmo sentido: manter a ordem burguesa e suas moralidades. A própria extrema direita no Senado foi a favor da lei da misoginia, e convenhamos: o que sai desse Congresso que é, de fato, em benefício do povo trabalhador?

No filme O Demolidor, de 1993, que na época parecia fazer uma sátira equivocada sobre o futuro, a sociedade não podia expressar palavrões – senão era multada na hora. Isso sem contar que mostrava uma sociedade improvável, por tanta falta de bom senso. Triste: cada dia mais, é um filme bem atual.

A luta da esquerda tem que ser vinculada à luta de classes. Cada vez que se impõe uma censura, uma lei privativa, um aumento de formas de reprimir, quem pagará o preço durante sua luta emancipatória será o próprio proletariado.

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