A democracia, tal como a conhecemos na América Latina, nunca foi neutra. É a forma política histórica da dominação da burguesia sobre o proletariado e os setores populares. Como Marx e Engels demonstraram há mais de 150 anos, a república democrática burguesa é o terreno mais favorável ao desenvolvimento do capital, mas também o terreno onde as contradições de classe se agudizam até o ponto de ruptura.
Hoje, em 2026, assistimos exatamente a essa ruptura em vários países do continente. Na Argentina, o governo de Javier Milei materializa com brutalidade a ofensiva do capital contra os direitos sociais e trabalhistas conquistados ao longo de décadas de lutas operárias e populares. A recessão provocada pela austeridade fiscal — cortes drásticos no gasto público, privatizações e desregulamentação — não é acidente, mas projeto de classe. A reforma trabalhista aprovada em fevereiro de 2026 (e parcialmente suspensa apenas graças à resistência sindical) é um ataque frontal: ampliação da jornada para até 12 horas diárias, facilitação de demissões, limitação do direito de greve, enfraquecimento dos sindicatos e precarização generalizada. Desde 2023, mais de 300 mil empregos formais foram destruídos, especialmente na construção, indústria e economias regionais. O que a burguesia argentina chama de “modernização” é, na verdade, a restituição da mais-valia absoluta ao capital, às custas da saúde, da vida familiar e da dignidade da classe trabalhadora. A “democracia” de Milei consiste em eleger o carrasco que vai executar o ajuste que o FMI e os grandes grupos econômicos exigem.
No Chile, o processo é ainda mais explícito. Em dezembro de 2025, José Antonio Kast — herdeiro político direto do pinochetismo — venceu as eleições e assumiu o poder em março de 2026, tornando-se o presidente mais à direita desde o fim da ditadura. A extrema-direita chegou ao La Moneda não por acaso, mas porque a “esquerda” de Boric fracassou em romper com o neoliberalismo herdado da Constituição de 1980. O cansaço popular diante de promessas vazias abriu caminho para o discurso autoritário, anti-imigrante e “lei e ordem”. Kast não esconde: sua agenda é a mesma de sempre — repressão aos movimentos sociais, defesa irrestrita da propriedade privada e alinhamento subserviente ao imperialismo norte-americano. A democracia chilena, que a burguesia tanto celebra como “exemplar”, mostra sua verdadeira face: quando o capital se sente ameaçado, ela se torna descartável.
No Paraguai, o governo de Santiago Peña (Partido Colorado, direita histórica) continua a tradição de neoliberalismo “light” com crescimento econômico sustentado por baixíssima carga tributária e atração de capitais estrangeiros. O país é vendido como “Tigre Guarani”, mas para quem? Para os latifundiários, as multinacionais e os setores mais reacionários da burguesia. A democracia paraguaia, frágil desde a ditadura de Stroessner, serve apenas para legitimar a concentração de terra e renda, enquanto os camponeses e trabalhadores organizados são criminalizados. O mesmo padrão se repete no Peru, no Equador e assim por diante: a extrema-direita ou a direita radical não elegem governos por “vontade popular”, mas porque o capitalismo periférico latino-americano, dependente e rentista, não consegue mais conciliar acumulação com concessões mínimas à classe trabalhadora.
Estamos presenciando o avanço da extrema direita diante do fracasso das democracias burguesas. Na ausência de um campo antissistema revolucionário, abre-se espaço para o setor mais atrasado da política ocupar esse vazio – a extrema direita, que é a tropa de choque da burguesia. Isso reflete a lei do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo em sua fase imperialista: quando a taxa de lucro cai e a crise se aprofunda, a burguesia abandona as máscaras democráticas e recorre ao autoritarismo aberto – ao fascismo. A crise de hegemonia, assim, pavimenta o caminho para o fascismo. Na América Latina de 2026, o fascismo veste a camisa de Milei, o discurso de Kast ou o conservadorismo colorado paraguaio.
Diante disso, a tarefa da esquerda revolucionária não é “defender a democracia” como fetiche liberal. É lutar pela democracia de um novo tipo: a democracia operária e popular, que só pode ser conquistada pela organização independente da classe trabalhadora. A luta constante pela democracia burguesa é, por sua natureza de classe, essencialmente uma luta da pequena burguesia. Sem a democracia burguesa, a pequena burguesia marcha aceleradamente para a proletarização. No entanto, nessa luta, a pequena burguesia quer o proletariado somente como força auxiliar de pressão para defender seus interesses de classe e para a preservação da ordem capitalista — nunca para a emancipação proletária, ou seja, para a revolução socialista e a ditadura do proletariado. Por conseguinte, a pequena burguesia recusa-se a permitir que o proletariado dirija essa luta, pois isso equivaleria a colocar a pequena burguesia a serviço dos fins políticos do proletariado: a tomada do poder. Ao sentir essa pretensão e essa direção do proletariado, a pequena burguesia passa imediatamente para o campo da burguesia, transformando-se em massa de ação — inclusive — para o fascismo
Isso significa de forma geral (dada a complexidade da América Latina):
– Fortalecer sindicatos combativos e centrais classistas que não se rendam à conciliação.
– Construir frentes e alianças anti-imperialistas, frentes únicas de luta contra os ajustes, as reformas trabalhistas e a repressão.
– Denunciar o papel do imperialismo (EUA e FMI) como fiador dessa onda reacionária.
– Avançar para formas superiores de organização: conselhos populares, coordenações de base, partidos revolucionários.
– No Brasil, em particular, frente ao quadro eleitoral, tensionar para se construir unidade do campo revolucionário, uma candidatura única sob uma plataforma soberana e democrático popular, acordado por esse campo.
A história não anda para trás por decreto. A mesma crise que empurra a burguesia para o autoritarismo cria as condições objetivas para que o proletariado latino-americano — herdeiro das lutas de Allende, Perón, Chávez e dos sem-terra — retome a ofensiva. A democracia que vale a pena lutar hoje é aquela que prepara o terreno para o socialismo: a democracia da classe operária. Qualquer outra coisa é ilusão ou traição. A hora é de luta. Não de lamentação.

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