Candidatos anti-sistema? Quais?

Primeiramente é preciso saber qual é o sistema que se está falando, isto é, a mudança em alguma parte da superestrutura ou a mudança na infraestrutura. Embora andem juntas, sem a mudança na infraestrutura não há mudanças na superestrutura; uma é a causa e a outra a consequência. Candidatos tipo Renan do Missão são considerados antissistema por que querem intervenção ainda maior na retirada de direitos dos trabalhadores, intervenção no Parlamento, nos governos estaduais, no STF, etc. Nenhuma medida sequer no Capital financeiro e bancário, nem na grande propriedade rural (Agronegócio ou latifúndio); trabalhando abertamente para a privatização do setor estatal, ou seja, aprofundando o Neoliberalismo.

Há um monte deles que querem ser antissistema com a pauta de intervenção na segurança, não na visão que o povo pensa, mas no que a burguesia pensa e que, de certa forma, a pequena burguesia é conduzida na mesma defesa, pois quer segurança para si, para sua classe, mas para obtê-la faz qualquer negócio para continuar distante das condições proletárias. Grande parte deles (candidatos) querem matar bandido; bandido bom é bandido morto, quem prendeu mata, presídios no meio da Amazônia, presídios privados, condenação do PCC e CV como terroristas; essas são as grandes pautas dos antissistemas.

O que vemos é o aprofundamento de tudo que já existia, agora de forma aberta por conta da crise crônica do Capital; sendo a perspectiva de saída para os setores da burguesia financeira a guerra, para pôr em movimento toda uma pilhagem contra os povos do mundo inteiro e contra os trabalhadores nacionais. Os seus defensores dos países não imperialistas já vão se adiantando para se colocar à altura de seus mandatários e tomando medidas de repressão contra o proletariado. Porque ninguém de sã consciência pensa que querem colocar os grandes vigaristas do mundo na cadeia, tipo Bolsonaro (com quase 1 milhão de mortos na covid) ou os Vocaros do sistema financeiro.

O antissistemismo de alguns candidatos é adequar o sistema nacional às condições da crise imperialista, mostrando-se como seguidores incontestáveis da política Monroe de Trump e Biden. Mesmo que não seja uma pauta antissistema, aproveitar a luta pela soberania para reforçar o anti-imperialismo já representa um bom negócio para a luta do nosso povo, e também para reforçar o ódio do povo às ações intervencionistas da burguesia americana e europeia. Agora, dizer-se antissistema e ser capacho, lambebotas dos EUA é um contrassenso. O povo parece estar atento a isso e mantém uma proximidade com o atual governo Lula, embora mantenha corretamente e, ao mesmo tempo, uma aprovação mediana. O povo sabe que o salário continua miserável, que para ter alguma coisinha é preciso se enterrar até o pescoço em endividamento, precisa-se trabalhar em dois ou três empregos para ganhar o sustento, não havendo no horizonte saída da situação. Pelo contrário, a cada dia a vida torna-se mais difícil.

O Lulismo, onde se prega que está tudo bem, que as coisas só melhoram, que o capitalismo bem administrável pela esquerda é a única saída, deseduca o povo, joga-o para a extrema direita, porque justamente em suas campanhas rebaixa a classe operária em sua capacidade de que só ela tem, de transformar o mundo, de lutar pela liberdade, por um mundo livre (e isso significa fim do capitalismo – Revolução).

O Lulismo converteu a luta pelo Socialismo do final do século passado em uma vertente do economicismo brasileiro, liderado por um enorme partido de esquerda protagonizado por um operário, que tem como maior qualidade a conciliação de classe, que, diante das condições concretas (sem partido revolucionário, desmonte do Estado Nacional por governos FHC e Collor, e agora as ameaças de dilapidação total do Estado brasileiro pela extrema direita), atrai amplos setores de luta, grande parte da população pobre, o Nordeste brasileiro, o centrão e a direita, e todos aqueles que defendem a superestrutura atual, baseada na Constituição brasileira. Queiramos ou não, ela (a constituição) é o resultado democrático da luta contra todo um período histórico marcado pela ditadura militar.

A direita é mais Lulista que grande parte da base do Partido dos Trabalhadores. Muitos militantes defensores do Socialismo não sabem para onde ir, ou, quando tentam inverter a lógica Lulista, como foi feito no RS, que tinha candidato próprio, sofreram intervenção. O que saiu da ditadura militar foi a constituição avançada que o Brasil tem; avançou-se na superestrutura. Por outro lado, puniu-se duas vezes aqueles que haviam sido torturados pelo regime militar, pois, além das consequências do regime, tiveram que conviver ao lado dos torturadores. Para tanto, era preciso que o processo democrático ficasse sob tutela da pequena burguesia de esquerda e popular, dentro de um partido que fosse controlável e que a democracia social não saísse da ordem burguesa. Era preciso que a luta democrática não alcançasse nenhuma mudança na infraestrutura; nem sequer a Reforma Agrária e a urbana foram feitas em governos do PT.

Por isso, hoje, diante de toda a crise do capitalismo imperialista, o PT e o Lula, que foram cria do fim da ditadura para respaldar a democracia burguesa, são, dentro dos partidos institucionais, os representantes da própria burguesia brasileira contrária à intervenção imperialista. Lula, em seu primeiro governo, removeu a ALCA, da qual FHC tinha se comprometido, e não vimos grande luta do setor empresarial e latifundiário para mantê-la. Isso demonstra que, ao mesmo tempo que a burguesia brasileira apoia o imperialismo, fazem corpo mole para levar as pautas deles, que são caras para a burguesia brasileira, até as últimas consequências. Querem um Estado para poder também eternamente explorar o povo sob seu comando e, é lógico, não dispensam a ajuda do imperialismo para manter distante o proletariado e a revolução. Mas romper com o imperialismo, militarmente, jamais.

No quadro atual, no entanto, ser do sistema, sistema brasileiro, sistema democrático burguês, democrático liberal, democrático social, mantenedor da constituição, ser defensor do sistema eleitoral, parlamentar, jurídico é, pelo visto, um estorvo para aqueles candidatos que se dizem antissistema e estão de mãos dadas com o desmonte da nação, a entrega, nas mãos do imperialismo, do controle político, militar, econômico e jurídico do país. Um quadro de intervenção tipo a Venezuela, Colômbia, Chile, Bolívia. Lula desperta o sentimento de luta, de independência contra toda a chantagem do imperialismo e seus representantes, os ditos antissistêmicos.

Não foi possível à burguesia construir a terceira via; porém, não se dão conta de que ela já foi construída: é o PT e suas projeções na Frente Ampla. Não há nada mais forte para a burguesia do que um partido que existe há 50 anos, estável e que defende com clareza a eternidade da democracia burguesa brasileira. Talvez nem os seus criadores pensassem que estavam construindo algo tão viável. O fim do PSDB é a concretização de que o PT assumiu seu lugar. Alckmin era do PSDB, e a saudade de Haddad de Fernando Henrique é esclarecedor.

Quanto aos candidatos da extrema esquerda, são antissistêmicos, querem a revolução socialista, defendem o proletariado, porém com força reduzida e dispersa. Não formaram um campo que pudesse bater na extrema direita e pontuar os limites do Lulismo, da Frente Ampla. Unindo-se a um propósito anti-imperialista, antilatifundiário, em defesa da Soberania pela força da luta do povo nas ruas, fariam “chover”, como diz o povo. A defesa da soberania passa pela força do povo mobilizado nas ruas, armado com um ideal revolucionário, com a classe operária na vanguarda e os partidos revolucionários unificados. Fora disso, é a mesma defesa da Soberania de Lula: quer, mas não tem bala na garrucha; não tem o povo como protagonista; na conciliação com a direita já não tem mais saldo, está começando a se tornar submissão, tal como o Ministro da Defesa ante a resistência à intervenção fascista ianque, abrir os portões. É uma Delci de gravata.

Mas, nesse quadro, nada pode ser ainda mais nocivo para as lutas atuais e futuras além do afastamento das mobilizações de rua, a vitória eleitoral da extrema direita, dos candidatos entreguistas, do Bolsonarismo e da CIA. A crise vai se aprofundar e, enquanto podemos criar dificuldades legais (tipo eleitoral) para diminuir a força dos agentes americanos e sionistas no país, faremos, mesmo sabendo que essa batalha é de pouquíssima longevidade, se não tiver o respaldo nas ruas.

Preparemo-nos, porque, no cenário atual, estará mais preparado quem tiver a consciência viva de que a intervenção fascista ianque e a guerra é o caminho “natural” diante da crise estrutural que vive o império e, portanto, tudo farão para ter lacaios pró-ianque no governo.

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