Como Marx salientou, os homens fazem sua própria história, mas não exatamente como a desejam; fazem-na a partir do que é possível realizar sob as circunstâncias legadas. A vida de um indivíduo é ínfima diante da longa duração histórica. Há gerações que vivenciam momentos históricos; outras, que viveram em períodos sem transformações significativas, pouco ou nada contribuem para o avanço efetivo da humanidade.
Desde a queda da URSS, ou mesmo antes, a esquerda revolucionária não logrou, em lugar algum, impactar de fato a luta de classes contra suas respectivas burguesias nacionais. O Brasil é mais um cenário onde essa esquerda se apresenta fracionada em pequenos grupos, sem representatividade orgânica no proletariado, mas que se deslumbra com fantasias momentâneas.
Entramos em um período eleitoral em meio a uma conjuntura marcada por guerras na Europa e no Oriente Médio, sem mencionar os conflitos na África. A turbulência econômica lança milhares à miséria em todo o globo, enquanto a revolução tecnológica, impulsionada pelo avanço das IAs, avança sem que tenhamos plena dimensão dos impactos que essas ferramentas provocarão no mundo do trabalho. As grandes empresas de tecnologia americanas já iniciaram demissões — a Microsoft adotou, pela primeira vez, um programa de demissão voluntária — e a China se consolida como um percurso tecnológico, afrontando e colocando em risco o imperialismo estadunidense.
No Brasil, a esquerda revolucionária torna-se uma necessidade para organizar a classe trabalhadora e enfrentar as tormentas que se avizinham, mas não temos uma organização à altura. Todos os partidos do campo revolucionário — PCB, UP, PCR e PSTU — são ínfimos diante da dimensão territorial do país; não conseguem eleger um único representante nas eleições burguesas, independentemente do município ou estado. No entanto, vivem de fantasia. Publicam pesquisas com seus candidatos marcando 1% ou 2% e comemoram como se houvesse algum feito real — sem perceber que esses números estão na margem de erro, e que talvez alguém os tenha citado por mero acaso em levantamentos de metodologia duvidosa. Sabemos que, na maioria das vezes, esses 1% ou 2% não representam nem um décimo do pico que obtiveram em sondagens anteriores. Além de validarem o processo eleitoral burguês, promovem uma fantasia vazia, sem respaldo algum no mundo material. Talvez devessem se firmar em alguma religião, porque o que os faz vibrar parece pertencer a um plano superior, onde a matéria e o movimento são partes desprezíveis e o fundamental é a ideia fundamentada em contos.
A análise concreta da realidade concreta, a partir das informações disponíveis, permite-nos fazer inferências sobre o real — nem sempre exitosas, pois nem sempre dispomos da totalidade dos dados, mas possibilita reduzir os equívocos da análise, por ser embasada nos fragmentos da realidade, por utilizar a leitura das leis econômicas vigentes, por tentar encontrar as relações entre os fenômenos e analisar o movimento das coisas e suas transformações. Trata-se de utilizar o materialismo histórico como ferramenta e saber que nem sempre acertaremos, mas que podemos reduzir o erro. Contudo, esse método parece distante da prática dos marxistas atuais, fechados em suas bolhas, repetindo fraseologias prontas: “Os bolcheviques eram pequenos, e depois eram toda a Rússia”. Desprezam o árduo trabalho de organização que foi necessário para chegar à revolução, e desconhecem o contexto objetivo e subjetivo daquela época, que é, por assim dizer, radicalmente distinto do nosso.
Os partidos da esquerda revolucionária que reproduzem a cada dois anos a mesma tática de marcar passo, sem ousadia para tentar algo novo e sem um ato sequer que clame pela unidade dos revolucionários, vivem em contos de fadas e transferem as tarefas do nosso tempo para as gerações futuras. Voltar à realidade e perceber a debilidade do momento é fundamental para encarar a tarefa urgente dos comunistas: organizar e construir um partido revolucionário fruto da unidade dos partidos comunistas.
É possível a unidade dos revolucionários? Certamente não é uma tarefa fácil.
Combater o dogmatismo, aceitar opiniões divergentes, romper com os pejorativos rótulos de stalinismo versus trotskismo e acolher as antíteses para que a síntese seja formada pelo conjunto — e não por uma voz divina — é a tarefa mais revolucionária do nosso tempo. Trata-se de um passo imprescindível para a construção da ferramenta capaz de organizar o proletariado a enfrentar a burguesia, ou seja, a construção de um Partido Revolucionário.
Pela Unidade dos Revolucionários!

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