A unidade dos revolucionários passa pela Internacional Anti-Fascista e Anti-Imperialista

Desde o ano passado, muitos procuram encontrar a terceira via eleitoral para fugir da polarização entre esquerda (Lula) e direita (bolsonarista). Até agora, alguns ainda qualificam o candidato Ronaldo Caiado como terceira via ou, mais recentemente, o candidato do Avante, Augusto Cury. Uma primeira verdade precisa ser dita: desde que voltamos a votar para presidente, com a promulgação da Constituição de 1988, a polarização é uma constante. A primeira delas foi Lula (representando a Frente Brasil Popular, junto com todos os partidos e círculos de esquerda, inclusive o PDT no segundo turno) contra Collor, representando todos os partidos da direita, do centro-direita e por aí vai.

E assim foi até os dias de hoje. Desde aquela época, procura-se um candidato que esteja acima da luta de classes, que talvez não consiga agradar “gregos e troianos”, mas pelo menos não os ponha em guerra. Ora, até o “picolé de chuchu” tinha uma classe a representar; por que haveria um candidato desse tipo? Mas a ideia é tornar o mundo maravilhoso da escravatura assalariada o único mundo possível, o fim da história e, portanto, é preciso agir com civilidade e não jogar “lenha na fogueira”.

Por isso a terceira via parece um conto de fadas, até porque não existe objetivamente: é apenas um esforço subjetivo da classe no poder para engambelar o povo e fortalecer o oportunismo dentro das fileiras da classe operária. No entanto, todos os anos buscam esse candidato ideal, esse elemento para fugir da polarização. Caiado, mesmo que quisessem fazer todos os esforços para que ele parecesse a terceira via, está atolado historicamente no que há de mais reacionário aqui no Brasil. Elemento da ditadura militar, chefe da UDR, latifundiário de profissão: esses são os seus crachás de boa conduta.

No campo revolucionário, a terceira via também apareceu nas concepções da pequena burguesia: nem socialismo, nem capitalismo; uma democracia universal, sem ditadura. Quem viveu esse período lembra-se muito bem disso. Mais recentemente, surgiu no Fórum Social Mundial a perspectiva de que outro mundo é possível, convencendo os desavisados de que o mundo possível para a ciência social pós-capitalismo chama-se socialismo. A ideia de fugir da luta de classes é acabar com o antagonismo das classes e, logicamente, com as suas ideologias, para inaugurar um Estado em que a democracia é a força total e a ditadura não opera. Ora, se isso existisse, significaria não haver mais Estado, e a própria democracia deixaria de existir: passaríamos ao plano da liberdade. Aí é o comunismo. Nós defendemos isso, mas, para chegarmos lá, é preciso um caminho histórico que chamamos de socialismo. E ele, o socialismo, já sumiu inclusive da literatura da esquerda. A nova moda atual é ser identitário, mais avançado que o socialismo.

Mas, voltando ao tema eleitoral brasileiro, a história tem demonstrado que sempre houve polarização entre candidatos de esquerda e direita. No entanto, desde o golpe contra a presidenta Dilma, abriu-se outro tipo de polarização, isto é, entre a direita e a extrema direita. Não existe mais a polarização entre esquerda e direita que houve desde 1989, entre Lula e Collor, e que permaneceu por um longo período, encerrado com a eleição de Dilma e Aécio. A luta da terceira via foi concluída, e o PT passou a ser a terceira e a primeira via consequente defendida pela direita.

O PT nasce como terceira via ao movimento comunista no Brasil e às organizações armadas que lutaram contra a ditadura. Um sindicalista foi alçado a ocupar essa posição para inviabilizar o lado mais radical. Porém, essa terceira via recebeu a entrada de correntes revolucionárias e foi mais à esquerda do que se esperava. Daí foram feitos dois novos movimentos. O primeiro foi a busca de uma alternativa ao PT no campo do “centro”-direita e progressista (uma nova terceira via), em que se procurou um intelectual quase de esquerda para liderar esse partido: Fernando Henrique, sociólogo, com trabalhos e livros no campo social. Em essência, veio para pôr fim ao PT, pois este estava assediado por grupos trotskistas e esquerdistas. O segundo movimento foi a expulsão desses vários grupos: na última década do século XX, vários foram expulsos do PT.

A vitória de Lula em 2002, do PT sobre o PSDB, depois de três eleições anteriores perdidas, ainda trouxe muitas dúvidas à burguesia brasileira. Para demonstrar que seu caminho era a defesa da democracia burguesa, Lula escreveu uma Carta ao Povo Brasileiro, comprometendo-se a não fazer sequer reformas estruturais, como, por exemplo, a reforma agrária, a reversão das privatizações neoliberais patrocinadas por FHC, a reforma urbana etc. Além disso, colocou um vice empresário, o que permitiria à burguesia, caso houvesse ainda uma guinada à esquerda, trocar o candidato. Mas não foi preciso: tudo saiu bem para a burguesia.

Como dissemos acima, a polarização se deu até a eleição com Aécio Neves, e a derrota do PSDB levou à radicalização da luta pela terceira via, pois Aécio não aceitou a derrota. Porém, o golpe contra Dilma abriu as portas do inferno: a extrema direita, contida desde o fim da ditadura, saiu da toca e colocou em maus lençóis a direita de Temer. Por fim, a extrema direita, com Bolsonaro, avança e começa a pilhar o Brasil. A direita tinha só uma bala: tirar Lula da cadeia e colocá-lo em condições de concorrer. Com isso, fez um novo pacto com o PT, quase igual ao do fim da ditadura militar. Porém, naquela época o povo e as lutas democráticas estavam em ascensão, a esquerda era a força dirigente das ruas, o povo estava prestes a exigir mudanças. Aquela ascensão foi trocada por um colégio eleitoral e, mais tarde, por um processo eleitoral, levando a luta para um campo em que a burguesia tem o controle. Agora a esquerda aparece como refém, sem forças, e busca neutralizar a extrema direita, que está em alta no mundo, dada a crise imperialista.

E, nestas eleições de 2026, o PT é a via própria da direita: uma terceira via nascida para conter o avanço dos comunistas no fim da ditadura (1986), que se tornou esquerdista e foi substituída por uma terceira via com o nome substancial de Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB, 1992, surgido dentro do PMDB), um nome próprio de terceira via. Portanto, o fim do PSDB é a constatação mais clara de que a direita já tem no PT o seu próprio partido da terceira via. Por isso, nada se cria além do próprio PT, do próprio Lula, para a direita nestas eleições. Ter Alckmin junto de Lula é a maior expressão do atestado de óbito do PSDB e da força que o PT se tornou como partido do sistema. Não há mais luta no campo da terceira via na época atual; a luta agora é defender a terceira via como via única contra a extrema direita. Este é o quadro colocado.

É o fim da história da luta pela terceira via? Nestas eleições, sim. A candidatura de Lula é a vitória da terceira via petista como via única da direita. Por isso, erram todos aqueles que procuram uma terceira via no quadro atual: ela já existe e lidera as intenções de voto. A direita não tem alternativa eleitoral para isso e, mesmo que tivesse, como a sustentaria depois? Porque a terceira via só serve à direita caso ela continue dando as cartas, e as “terceiras” vias que aí se encontram (Caiado, Renan, Zema, Cury etc.) são todas extensões da extrema direita, isto é, do bolsonarismo lambe-botas do imperialismo. Todos estão aí para apoiar o caminho que vem sendo processado na América Latina, o da política imperialista, tal como já ocorreu no Peru, Equador, Chile, Bolívia, Colômbia e Venezuela: uma política de intervenção e de fim das soberanias nacionais. O que vem sendo imposto a países como Rússia e Irã é um processo de neocolonialismo. Nem a dita ALCA se discute mais; é neocolonialismo mesmo. É nesse contexto que a direita explodiu: uns querem continuar como sócios menores do imperialismo; outros (a extrema direita) querem ser gestores do neocolonialismo.

Qual é o caminho que se estabelece, a partir desta análise, para os comunistas? A extrema direita se reforçará de qualquer maneira em curto período; o caminho é que ela ocupe cada vez mais o terreno de domínio da burguesia brasileira e reforce o imperialismo em nosso país. Uma conjuntura de muita luta, miséria econômica e avanço da guerra civil. A frente única, neste momento, tem de ser reforçada com a luta anti-imperialista e, portanto, com a condenação da extrema direita e de seus asseclas. Essa luta poderá unir o povo para a revolução, uma nova luta pela independência.

Por isso, é estratégico construir a Internacional Anti-imperialista, Antifascista e Revolucionária na América Latina. Temos de retomá-la, uma vez que foi abandonada: a Venezuela, que era o seu centro de comando, traiu a luta revolucionária na América Latina e, aqui no Brasil, ela foi tomada por grupos da esquerda institucional que quiseram fazer campanha eleitoral em cima dela.

Quanto ao PT, é provável que não tenha função alguma em uma conjuntura tomada pela extrema direita. Vai sumir das ruas, como já vimos anteriormente. Por isso é ainda mais necessária a construção de um comando que unifique a luta anti-imperialista aqui no Brasil e a leve ao nível da América Latina. Os tempos serão sombrios inicialmente, mas, tendo um centro de luta revolucionário, pode-se abrir um novo período histórico e revolucionário. A crise hoje é diferente das anteriores, e parece que os povos já não aceitam baixar a cabeça diante de tantos massacres e genocídios. O que faltará é o comando, a parte subjetiva para unir as forças de luta, os vários círculos, a vanguarda e o povo.

A unidade dos revolucionários está na criação da Internacional Anti-imperialista, Antifascista e Revolucionária, capaz de elevar a unidade dos comunistas a um novo patamar.

Pela unidade dos revolucionários!

Viva a revolução socialista!

João Bourscheid

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