Por que a encruzilhada e por que novamente? Em 1935, sob o governo de Getúlio Vargas e diante de uma guerra mundial que se desenvolvia rapidamente, o governo brasileiro da época acenou para o governo nazifascista de Hitler, na Alemanha. Ao eliminar a ação comunista revolucionária e sob pressão do imperialismo norte-americano, Vargas mudou as coordenadas, passando a atuar junto aos Aliados contra o Eixo. A mudança, além de política, foi a base de um financiamento de 20 milhões de dólares, que Vargas utilizou para montar toda uma estrutura para o desenvolvimento industrial do Brasil: a CSN. Ela era tão ou mais importante que a Petrobras hoje, caso fosse 100% estatal.
Não foi Vargas quem estava naquele momento numa encruzilhada; era a própria burguesia brasileira. Conforme a forma como se posicionasse na guerra (que, para nós, é a continuidade da política por outros meios), a burguesia definiria o seu futuro como pária do fascismo ou como “libertadora”. A negociação com o imperialismo do Norte, de certa forma, era esperada, visto que, historicamente, as classes dominantes em nosso país só se radicalizam e demonstram valentia contra o povo pobre do país ou a mando do próprio imperialismo, como no caso da Guerra do Paraguai. A soberania, para essa classe (burguesa), só existe desde que não contrarie os ianques, e 1964 é mais uma prova disso, de como a burguesia se vê em relação às encruzilhadas históricas.
2026, eleições brasileiras para presidente. Lula, que atua como um novo Getúlio (já vai para o quarto mandato à frente do Estado brasileiro e, em breve, poderá superar Vargas em tempo de governo), está hoje também diante de uma encruzilhada histórica. O Brasil faz parte do BRICS, que, econômica e militarmente, tem força para enfrentar o imperialismo. Porém, o Brasil sozinho só tem chance com a unidade do povo, que, em essência, foi desconstruída pelo próprio Lula, que vê o povo como uma massa sem protagonismo. A encruzilhada aparentemente é de Lula, mas é lógico que o problema é da burguesia brasileira, e talvez seja maior do que o de 1935, quando também estava em jogo o caminho a seguir.
Em termos econômicos, para a burguesia brasileira o BRICS é superior aos EUA: abre portas e a soberania aparece de forma mais visível. Porém, como tudo na vida, pode ficar mais difícil se a força militar do imperialismo se impuser, e vai se impor, como já demonstrou em toda a América Latina. Portanto, o que parece ser melhor também pode ficar pior. Por isso, o cheiro de golpe está insuportável.
Para uma parte da burguesia, tudo fica mais fácil abrindo os portões para os EUA. E, como vimos, eles estão dos dois lados. Claro, a burguesia, no final das contas, é única, aqui no Brasil e no mundo; sua trajetória histórica demonstra isso. Porém há burguesias e burguesias: a nossa difere da burguesia da Rússia, do Irã, da Síria, da Líbia etc. Nos países da América Latina, a burguesia, de fio a pavio, é pró-imperialista assumida. O que leva, então, à divisão por aqui e no mundo entre a extrema direita e a direita? Aqui é o “apoio” ao “projeto” da pequena burguesia, democrático-burguês, que em épocas de crise amortece a luta proletária, reforçando o projeto burguês de eternidade democrática. No caso da esquerda institucional, o PT faz exatamente isso. Por isso o PT é a terceira via, chamada quando necessário.
A terceira via, em determinados países, vale muito. Uns falam da social-democracia, nome com que o PSDB se apresentou no passado. O PSDB veio para aprofundar, em tempo recorde, a privatização das empresas estatais, cumpriu parte do compromisso da direita unificada e do imperialismo e foi-se. O PT tem bases mais profundas, tem força para ir mais adiante e já demonstrou isso na prática. Sofreu um golpe e não se desintegrou. Ocupou o espaço deixado pelo fim da ditadura, em crise; trouxe grupos revolucionários para dentro de sua organização; desidratou a possibilidade de um grande partido revolucionário; expulsou, mais tarde, os expoentes mais radicais da sigla; e, na hora da crise neoliberal, segurou as pontas para a burguesia com a Carta ao Povo Brasileiro, prometendo não radicalizar.
Hoje o terreno está limpo para a terceira via petista, desde que ela tenha a total confiança da burguesia brasileira de direita. Mas o mundo mudou: a crise que Lula chamou de “marolinha” era, na verdade, um tsunami e levou ao golpe contra a presidenta Dilma. Hoje essa terceira via já não serve mais; é descartável para o imperialismo em crise profunda, mas não para uma parte dele, que sabe que, em crises profundas e disputas entre os de cima, é melhor manter os anéis do que perder os dedos. Outra parte da burguesia brasileira, pelo contrário, quer se destacar como fiel depositária dos mandos do imperialismo no Brasil para se salvar. A extrema direita viu essa tendência no golpe contra a presidenta Dilma, quando, logo em seguida, embretou a direita comandada, na época, por Temer.
Conclusão. A encruzilhada histórica está aberta novamente. Ou nos submetemos à doutrina Monroe ou alçamos as perspectivas rumo ao Oriente, aos BRICS ou às teses do multipolarismo. A burguesia de direita quer encontrar um meio-termo, seguir mantendo contato com os dois lados e tirando proveito de ambos. Esse lado seria o que a terceira via de Lula representa. O outro lado já decidiu: quer ser o quintal do imperialismo, quer ser novamente colônia, quer a submissão como elemento principal, pois detesta a esquerda socialista, detesta o comunismo e tem posições ideológicas iguais às do imperialismo, que quer o fim imediato da China e de Cuba.
O abandono do socialismo por parte da esquerda também é sempre um bom argumento para o imperialismo negociar. Lula, como terceira via, faz o jogo; chegou até a dizer, em evento na Europa, que não é esquerdista, é sindicalista. Isso demonstra que ele faz de tudo para continuar sendo bem aceito no meio burguês, no mundo burguês, seja o do imperialismo, seja o do Brasil. Até deixou a Venezuela a ver navios, para demonstrar que ama a democracia burguesa e imperialista. Mentiu ainda ao dizer que a única democracia capaz de colocar um operário na presidência é a burguesa; ignora a teoria de que o socialismo põe toda a classe operária no poder, e não um presidente a mando da própria burguesia.
O que é certo é que a crise vai se aprofundar, e a encruzilhada histórica atual pode ser uma nova negociação com o imperialismo, tal como foi a de Vargas. Só que, naquela época, abriu-se um cenário de desenvolvimento industrial para o país, muito bem articulado por Getúlio e pela burguesia da época. Agora o caminho será a colonização mais intensa, mais aprofundada, ainda mais dependente e colonial, do tipo da Argentina de Milei ou, se quiserem, da Venezuela, que sofreu um golpe recente e, sem resistência, foi subjugada, ou da América Latina em geral.
Com Lula, essa condição terá dificuldade de se tornar a tendência aberta, principal, de fácil manejo, porque, por mais que ele defenda o economicismo, luta, sem dúvida nenhuma, por avanços no plano democrático-burguês nacional como tendência eterna, coisa que o próprio imperialismo só aceita quando o outro lado resiste pela força (ver Rússia, Irã). Lula também não está disposto a abrir mão da continuidade da aproximação com os BRICS; porém, o fim deles é ponto pacífico para o imperialismo, pois bate de frente com a China. Por isso, ganhar eleitoralmente com os vendepátrias do bolsonarismo e da extrema direita é a tática atual do imperialismo aqui no Brasil; caso não cole, o golpe já foi acionado pelo país da CIA e do sionismo. Ganha, mas não governa, tal como ocorreu com Maduro.
Mas a tendência principal da encruzilhada histórica do capital no mundo atual, e não só no Brasil, continua a ser a revolução socialista. Ver o imperialismo ter problemas com o Irã justamente naquilo em que mais se destaca, a guerra, é um sinal, assim como a dificuldade de acompanhar o desenvolvimento econômico e tecnológico chinês. A briga interimperialista também se aprofunda, entre a União Europeia, os EUA, a Inglaterra e o Canadá. A OTAN tem divergências profundas; a Europa não é mais um todo unido. Além disso, os povos já não querem mais viver como antes, nem na Ásia, nem na África, nem na América Latina, em lugar nenhum. E as burguesias que se submetem até o pescoço em defesa do império vão enfrentar, em seus países, oposição crescente, como estamos vendo no Peru, no Chile, na Bolívia e na Argentina etc.
Estar preparado para a crise e seu aprofundamento, para os golpes internos e a guerra civil, é uma das condições para a construção do partido revolucionário no momento atual, pois ele luta ideologicamente contra as tendências economicistas, nas quais o positivismo e o agnosticismo são as filosofias básicas e que, no nosso caso brasileiro, se refletem no lulismo. No Brasil, a luta entre as frações da burguesia (direita e extrema direita) já tem mais de 8 anos e agora se aprofunda no Supremo Tribunal Federal. Ela não vai parar e atingirá as Forças Armadas. Este será o novo estágio e poderá levar a massa do povo às ruas e a uma guerra civil aberta. Não haverá mais tempos de equilíbrio a curto prazo no Brasil e no mundo, tanto que estamos a um passo de uma terceira guerra mundial.
O espectro do comunismo ronda o mundo mais intensamente neste início de século XXI: pela crise imperialista, pela resistência dos povos, inclusive por burguesias nacionais que não querem se submeter completamente ao neocolonialismo, e pela resistência dos países que fizeram a revolução e resistem ao cerco do fascismo institucionalizado nos EUA. É preciso estar preparado para os saltos: se a crise de 1929, que levou à guerra mundial em 1939, fez o Partido Comunista Brasileiro chegar perto de tomar o poder aqui no Brasil, com muito menos experiência, menos acúmulo teórico e, digamos, diante de uma crise menor do imperialismo (porque elas sempre são maiores e mais profundas), hoje as condições são ainda mais favoráveis. Por isso, é preciso ter fé na luta, na Revolução, na classe operária, no proletariado, pois o tempo difícil para nós significa que eles já sentem que a crise pode e vai virar viração.
Pela Revolução mundial e brasileira
Pela construção de um partido revolucionário
Fora, imperialismo, da América Latina!
João Roberto Bourscheid

Faça um comentário