O caso recente de Flávia Medeiros, exonerada do Itamaraty após sua autodeclaração racial ser contestada por uma banca de heteroidentificação, reacendeu um debate que vai muito além das cotas raciais. Este episódio não é um fato isolado, mas um sintoma de um problema estrutural: a transformação de uma luta justa, como a luta antirracista, em uma disputa cada vez mais fragmentada por identidade, reconhecimento e acesso a migalhas dentro de um sistema que, em sua essência, permanece intocado.
O Que é o Identitarismo?
O identitarismo, em sua definição mais precisa, é a ideia de que a política deve ser organizada a partir e fechada na própria identidade do grupo. Diferentemente de reconhecer que existem opressões específicas que atingem determinados grupos, o identitarismo propõe que a ação política se estruture exclusivamente em torno da identidade do grupo e da defesa de seus interesses particulares.
Como bem definiu o manifesto do Combahee River Collective, marco do identitarismo:
“Essa ênfase em nossa própria opressão está incorporada no conceito de política identitária. Ao invés de trabalharmos para acabar com a opressão de outras pessoas, acreditamos que a política mais profunda e potencialmente radical vem diretamente da nossa própria identidade.”
É preciso, porém, olhar com honestidade para a origem desse fenômeno. O identitarismo não é uma criação espontânea dos movimentos populares brasileiros. Ele é uma importação direta dos Estados Unidos, produzido e disseminado por uma “elite intelectual” que, ao invés de ouvir as comunidades oprimidas do Brasil — quilombolas, indígenas, povos de terreiro, periferias —, prefere consumir teorias acadêmicas estrangeiras e aplicá-las como receita de bolo. E essa importação de um momento da realidade estadunidense foi transformada aqui em produto adaptado para universidades, ONGs e movimentos sociais com financiamento internacional. O resultado é um discurso que fala do Brasil sem conhecer o Brasil, que define quem é negro ou pardo a partir de categorias que não correspondem à nossa história, e que frequentemente exclui exatamente as pessoas que diz defender.
Não é por acaso que os maiores defensores do identitarismo no Brasil estão nas universidades, nos centros de pesquisa e nas ONGs financiadas por fundações estrangeiras — e não nas favelas, nos quilombos ou nas aldeias indígenas. Essa elite, intencionalmente ou não, reproduz uma lógica colonial: ela define quem é o “oprimido autêntico”, estabelece critérios de pertencimento, fala em nome de quem não tem voz e, no limite, decide quem merece ou não acesso a políticas públicas.
O caso Flávia Medeiros é revelador: uma banca de especialistas — formada, em grande parte, por essa mesma “elite intelectual” — decide que uma mulher parda, que seria contabilizada como negra nas estatísticas de violência policial, não é “negra o suficiente” para uma vaga no Itamaraty. Quem está dizendo isso? Não são as comunidades tradicionais, não são os movimentos populares de base. São intelectuais com títulos, formados em universidades onde o debate racial chega filtrado pelos EUA, aplicando critérios subjetivos e importados para uma realidade que eles mesmos desconhecem.
A Torre de Babel da Esquerda
O problema fundamental do identitarismo é que ele substitui a luta universal por uma disputa de narrativas particulares. Em vez de construir uma frente ampla contra a estrutura de opressão do capitalismo, a esquerda pequeno-burguesa fragmenta-se em grupos que competem entre si por reconhecimento e privilégios simbólicos.
Essa fragmentação cria uma verdadeira “Torre de Babel” onde:
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A luta coletiva é substituída pela experiência individual: O sofrimento de cada grupo torna-se moeda de troca política, criando uma hierarquia de opressões onde todos disputam quem sofre mais.
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A estrutura é ignorada em favor da identidade: Em vez de questionar por que vivemos em uma sociedade que produz desigualdades, o debate concentra-se em quem tem o direito de acessar as poucas oportunidades que o sistema oferece.
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A divisão é fomentada como estratégia: O sistema capitalista, que se beneficia da fragmentação da classe trabalhadora, encontra no identitarismo um aliado perfeito, pois enquanto os oprimidos discutem entre si quem é mais ou menos privilegiado, a estrutura de exploração permanece inquestionada.
A Contradição das Estatísticas
Um dos exemplos mais claros dessa distorção está no uso das categorias raciais no Brasil. Vejamos os dados do IBGE:
| Cor ou Raça | População (Aproximada) | Porcentagem (%) |
|---|---|---|
| Parda | 92,1 milhões | 45,3% |
| Branca | 88,2 milhões | 43,5% |
| Preta | 20,7 milhões | 10,2% |
| Indígena | 1,2 milhão | 0,6% |
| Amarela | 850 mil | 0,4% |
A contradição se revela no uso pendular dessas categorias:
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Para estatísticas de violência e desigualdade: pessoas pardas são contabilizadas como negras, inflando os números para demonstrar o impacto do racismo.
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Para acesso a políticas públicas: as mesmas pessoas pardas podem ser excluídas das cotas raciais, como ocorreu com Flávia Medeiros, Vitória Barros, Rebeca Mello e tantos outros relatos, muitas vezes, apagados das grandes midias para não destoar do coro identitarista que os favorece.
Existe hoje uma “impossibilidade de universalismo” quando nos perdemos em disputas particulares. A tentativa de estabelecer critérios objetivos para a “negritude” esbarra na complexidade da miscigenação brasileira e na subjetividade das bancas avaliadoras, criando um sistema que, na prática, exclui exatamente aqueles que a lei pretende incluir.
O Falso Debate do Privilégio
O identitarismo introduziu no debate público a noção de “privilégio” como uma ferramenta para hierarquizar opressões. Esse conceito, embora tenha utilidade analítica, tornou-se uma armadilha que desvia a atenção do que realmente importa.
O verdadeiro privilégio — o que realmente define seu lugar na sociedade — não está na cor da pele, no gênero ou na orientação sexual, mas na posição que você ocupa dentro da estrutura de classe. Ser branco e pobre não é um privilégio. Ser negro e bilionário também não é uma desvantagem.
A violência policial que atinge desproporcionalmente a população negra é real e deve ser combatida. Mas a solução não está em disputar quem tem mais ou menos privilégio, e sim em questionar por que uma estrutura social produz esse tipo de violência e como podemos transformá-la radicalmente.
Enquanto a esquerda se ocupa em discutir se Flávia Medeiros é “negra o suficiente” para ter direito a uma vaga no Itamaraty, bilionários não pagam impostos, dívidas públicas são perdoadas para os ricos, e trabalhadores se endividam para sobreviver.
A Luta Coletiva como Emancipação
A saída para esse impasse não está na negação das lutas específicas, mas em sua articulação dentro de um projeto universal de transformação social. Uma pessoa que sofre racismo e uma pessoa que sofre homofobia têm opressões diferentes, mas compartilham a mesma estrutura que as produz.
A luta coletiva e emancipatória parte do princípio de que:
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Todas as opressões estão interconectadas: Não se combate o racismo sem combater a desigualdade econômica, assim como não se combate o machismo sem combater a exploração do trabalho.
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A solidariedade deve ser incondicional: Não podemos criar hierarquias de sofrimento onde um grupo só se une a outro se este reconhecer sua “superioridade” na opressão.
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O objetivo final é a transformação estrutural: As políticas afirmativas são importantes, mas não são um fim em si mesmas. São ferramentas para um projeto maior de sociedade.
O caso Flávia Medeiros, e tantos outros, apontam para a mesma direção: o identitarismo, ao invés de fortalecer a luta antirracista, acaba por dividi-la, criar contradições internas e, no limite, produzir injustiças como a que Flávia está vivendo.
O Limite do Identitarismo
O identitarismo é olhar para a Forbes e perguntar por que não há negros no topo da lista, em vez de questionar por que vivemos em uma sociedade que produz bilionários. O problema deixa de ser a estrutura que gera a desigualdade e passa a ser a falta de diversidade no topo dessa estrutura.
O identitarismo chegou ao seu limite quando uma pessoa que seria contabilizada como negra nas estatísticas de violência policial é excluída de uma política pública exatamente por sua condição étnica. Esse paradoxo não é um acaso, mas a expressão de uma lógica que prioriza a identidade em detrimento da luta, o indivíduo em detrimento da coletividade, a migalha em detrimento do banquete.
A esquerda precisa superar a Torre de Babel em que se transformou e reconstruir um projeto político que una, em vez de dividir, que amplie, em vez de restringir, e que tenha como horizonte não a disputa por reconhecimento dentro do sistema, mas a transformação radical do próprio sistema.
A política mais profunda e potencialmente radical não vem da nossa própria identidade, mas da nossa capacidade de reconhecer no outro um igual, de construir pontes onde o identitarismo constrói muros, e de lutar não por uma vaga a mais, mas por uma sociedade onde todos tenham o direito de existir com dignidade, sem precisar provar a “autenticidade” de sua opressão.
A solução radical — aquela que atinge a raiz do problema — não é olhar para a Forbes e pedir diversidade, mas acabar com a Forbes. Não é buscar um espaço melhor em uma estrutura educacional precarizada, mas acabar com a precarização da educação. Não é disputar migalhas como se direitos fossem privilégios — é destruir a estrutura que faz da luta por justiça uma disputa por reconhecimento dentro do próprio sistema que produz a opressão. Só existe um caminho para acabar com a opressão: A unidade na luta. A REVOLUÇÃO!
Como disse Fred Hampton, líder do Partido dos Panteras Negras: “Não vamos combater o capitalismo com o capitalismo negro; vamos combatê-lo com o socialismo”
Só a revolução acaba com a opressão!
Pela unidade dos revolucionários!
Ousar lutar, ousar vencer!
Referência: Este artigo foi desenvolvido com base no conteúdo do vídeo “O IDENTITARISMO CHEGOU AO LIMITE? O caso Flávia Medeiros“, do canal Frederico Krepe (https://www.youtube.com/@FredericoKrepe), com reflexões complementares sobre a relação entre identitarismo e luta de classes.
Dados populacionais: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) 2024.

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